segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

A galinha da vizinha é sempre mais magricela que a minha. E mais triste. E mais doente.

Adoro pessoas!

Não adoro nada, estou a gozar. Sobretudo aquelas que estão sempre mais doentes que as outras, que bebem mais que as outras, que têm multas mais graves que as outras, que sofreram traições muito mais dolorosas, e por aí fora. Malta. A sério. Há coisas de que não é lá muito bom estar-nos a gabar.

Encontramos uma amiga que nos pergunta como vai a vida e respondemos que mais ou menos, que estamos a recuperar de uma gripe que nos atirou para a cama durante três dias e que acabámos por pegar ao resto da família e ficou tudo em casa de molho. A amiga lamenta e deseja as melhoras? Não! Ela diz logo: "Ah! Mas eu fiquei uma semana inteira de baixa, levei três injeções por dia e estava a ver que tinha de ficar internada. Sim, porque ficar mais doente que os outros é, de facto, uma coisa maravilhosa.

Estamos a contar, num grupo de amigos, aquela bebedeira mítica do tempo da faculdade, que nos deixou conhecidos no curso todo. Alguém diz: "Ai, que vergonha deves ter passado"? Claro que não! Há sempre alguém que já apanhou uma pior. No mínimo, ficou em coma alcoólico e tiveram de chamar a ambulância. Felizmente naquele tempo os telemóveis não tinham câmara e não havia internet a torto e a direito, por isso, tais proezas nunca vão poder ser comprovadas. Mas o certo é que as bebedeiras dos outros são sempre piores que as nossas.

Uma pessoa está num dia mau, a queixar-se da vida, porque morreu o gato e o marido a trocou pela secretária lá do escritório, que fazia muitas horas extra. Lamentar e dar uma forcinha, porque o amanhã será melhor? Pfff! Lógico que não! A vizinha vai logo dizer que isso não é nada comparado com a desgraça dela, que perdeu a mãe, o pai e o cão, além de ter um sobrinho drógado e uma prima que, coitada, é dótora e está a trabalhar no café da esquina.

Podia ficar aqui a tarde toda a dar exemplos destes maravilhosos seres, mas sou mais ocupada que vocês todos e ainda tenho milhentas coisas para fazer. Muitas mais que vocês! 

Um dia destes dissertarei sobre as criaturas do 'podia ser pior'. 
- "Ah e tal, parti uma perna". 
- "Podia ser pior. Podias ter partido as duas. Ou podiam ter sido amputadas. Ou podias ter nascido sem pernas. E sem braços. Podias nem ter nascido!". 

Tá certo.

3 comentários:

  1. O pessoal adora competir em pequenas merdas.

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  2. Acho que as pessoas nem perguntam porque querem saber, é só para poderem dizer logo o que lhes aconteceu e que será, certamente, em maior escala.

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  3. Há quem não tenha a capacidade de dar um minutinho que seja de atenção e foco ao outro, mesmo nos momentos em que o outro mais precisa de uma palavra de ânimo ou simplesmente compreensão. Mas acho que também é um fenómeno cultural. Nós Portugueses adoramos competir sobre quem tem a desgraça pior, sobre as nossas doenças, as doenças dos outros, o vizinho que está desempregado e alcoólico.

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