quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Dilema (dos sérios): irá esta crise levar-nos de volta ao tempo da escravatura?

Tenho um novo dilema. Mas desta vez não é uma daquelas dúvidas parvas que gosto de partilhar e que não interessam a ninguém. Agora a coisa é séria. E não é só o meu dilema. É o nosso. Meu e de mais duas colegas de trabalho.
Explicar o problema vai, muito provavelmente, originar um longo post e não sei se terão paciência para o ler até ao final. Se conseguirem, agradeço. Se me derem a Vossa opinião, pode ser que me ajudem. 

Em 2011, fugida de um trabalho como jornalista / editora num jornal regional onde quase dei em maluca, comecei a trabalhar numa empresa de turismo, na área da Comunicação. As condições não eram as melhores, mas o desespero de sair do jornal onde estava era tanto, que na altura me pareceu o paraíso. Assim, aceitei trabalhar seis dias por semana, sendo que ao sábado seria ‘apenas’ das 10h30 às 16h30 e, entre a Páscoa e o início de Novembro, fazer o Domingo (tendo a folga ao sábado) em rotação com as colegas. Somos quatro, o que dá cerca de um Domingo por mês. Sem qualquer compensação extra. Tudo isto pela módica quantia de 600 euros. Subsídio de alimentação não existe, pois a empresa tem restaurantes e almoçamos lá. Só esta questão já dava para umas quantas páginas, de tão ridículo que se tornou, mas não é isso que me faz desabafar hoje.

Na entrevista a chefe disse que era necessário, aos sábados / domingos, o escritório estar aberto até às 18h30, mas que teria de arranjar uma solução para tal. Cerca de um mês depois de ter começado a trabalhar aqui, comunicou-nos que no fim-de-semana deixávamos de poder sair às 16h30 e que tínhamos de ficar até à hora normal de semana. Ou seja, a solução dela foi simplesmente acrescentar duas horas à jornada. Total de horas de trabalho semanais? 47.

O tempo foi passando e eu acumulando funções. Além da comunicação da empresa fiquei responsável por mais uma série de coisas, umas que têm alguma a coisa a ver com a minha área, outras que nem por isso. Tenho feito de tudo um pouco. Quando os novos escalões de IRS foram aprovados, retiraram-me 20 euros ao ordenado. Apesar de inicialmente ter acordado os 600, a empresa não assumiu o corte, pelo menos no meu caso, pois tenho conhecimento de o ter feito com outros funcionários. Saldo? 580 euros por mês. Balanço? Trabalho aumentou e salário diminuiu.

Há uma semanas ouvi uns rumores de que a chefe queria que continuássemos a fazer Domingos o ano todo. Ficámos logo revoltadas com a ideia e, em conversa umas com as outras, decidimos que se ela viesse falar sobre isso, iríamos recusar. Outubro acabou e ela não nos disse nada. Logo, no primeiro Domingo de Novembro, à semelhança dos últimos não sei quantos anos, ninguém foi trabalhar. Pensámos que ela tinha desistido da ideia e que ia tudo continuar como antes.

Ontem a chefe chamou-me para uma conversa. Quis fazer uma espécie de balanço do meu trabalho. Disse que quando acabasse o meu terceiro contrato me ia passar para outra empresa do grupo, pois não quer meter ninguém no quadro. É uma querida, não é? Acusou-me de não dar o suficiente à empresa, pois não fico a trabalhar até tarde. Tão fofa! Já perdi a conta às vezes que ela veio com esta conversa. Segundo a lógica dela, se eu fazia tantos horas no jornal (porque será que quis sair de lá????) devo fazer o mesmo na empresa! Eu expliquei que já trabalho seis dias por semana, logo, como ela deveria compreender, não posso ficar todos os dias a fazer horas extra (que por sinal não são pagas). Além disso, sempre que foi necessário, eu fiquei até mais tarde, pois achei que o devia fazer, sem ser preciso ninguém me pedir. Resposta dela: Isso foram casos esporádicos. Tradução? Tens de ficar mais vezes até mais tarde!

Quando eu achei que a conversa tinha acabado, veio a história dos Domingos. Basicamente a senhora quer que façamos os Domingos rotativos o ano todo. Segundo ela, não nos está a tirar nada, apenas a trocar a folga, pois é um dia normal, como outro qualquer. Questiono-me porque será que o Código do trabalho diz que os Domingos e feriados (que por acaso também trabalhamos à vez, entre a Páscoa e Novembro) devem ser pagos a dobrar (agora já não, mas não sei ao certo qual o valor) e compensados com uma folga extra…

Perante isto, eu fiz uma contra proposta, com vista a conseguirmos ter, pelo menos, um fim-de-semana livre cada uma, por mês, mas o máximo que ela ofereceu foi 1 fim-de-semana a cada uma. Apenas 1, nesses cinco meses. Tão generosa!

Eu não fiz boa cara e disse que ia pensar. A seguir a mim, foi outra colega. Mesma conversa. Como viu a coisa complicada, chegou a um ponto em que lhe disse: Agora decide. Podes aceitar ou não. E a minha colega questionou: E se eu não aceitar? Vai deixar de falar bem comigo? Vai-me fazer a vida negra? Vai-me despedir? Resposta: silêncio e um encolher de ombros. 
A terceira colega está de férias, por isso, teoricamente, ainda nem sabe de nada. 

Hoje é quinta-feira e ainda não demos uma reposta. Amanhã vamos ter de o fazer e ainda não conseguimos decidir se, mais uma vez, cedemos, ‘baixamos a calças’ e ainda oferecemos a vaselina para nos irem ao rabinho mais uma vez, arcando depois com as consequências (que podem ser desde fazer-nos a vida negra, a não nos renovar os contratos de trabalho) ou se batemos o pé, puxamos as calças para cima, e dizemos que não, que não aceitamos que continuem a foder-nos com jeitinho.


Por este andar, a crise vai mesmo levar-nos de volta ao tempo da escravatura. 

6 comentários:

  1. Unam-se e batam o pé!!!
    Já passei por uma situação semelhante há uns anos atrás e é uma vergonha o que andam a fazer connosco.
    Muita força!

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  2. Eh pah, eu achava que ganhava mal e porcamente mas tu consegues bater-me aos pontos. Sendo que eu ainda tenho mais uma vantagem, tenho patrões bastante porreiros. Penei muito antes de chegar aqui, mas felizmente consigo levantar-me todos os dias sem ter vontade de cortar os pulsos.

    Quanto ao caso em concreto, se todas estiverem unidas e ser juntarem numa só voz acho que conseguem que Vos oiçam, se alguma vacilar todas pagam por tabela.

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    1. Foi o que fizemos! Batemos o pé e dissemos não! Já conto tudo!

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  3. já agora, pode sempre haver uma queixa na ACT e sem ninguem contar aparecerem dois ou três ficais a pedir livros de ponto, horários, quadro de pessoal, medicna no trabalho e trinta por uma linha.

    Se precisares de alguém que faça uma comunicaçaozinha insuspeita a quase 100km de distancia, apita. Eu gosto sempre dar o corpo ao manifesto em acções de solidariedade.

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    1. Já pensei muitas vezes nisso, mas até lá eles têm conhecimentos! Já várias pessoas fizeram queixa depois de sair da empresa e eles ficam logo a saber. Mesmo que venha uma fiscalização, em termos de papeis, está tudo bem. A não ser que nos apanhem a trabalhar fora das horas que estão estipuladas nos contratos, não há muito a fazer...

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